28 maio 2007

AINDA O «MEMORIAL DO CONVENTO»

Eu li pouco da obra de Saramago e pouco sobre ela. Mas pouco é diferente de nada, e além disso não sou propriamente um principiante na leitura de obras de ficção narrativa. Em particular, li o artigo do Prof. Carlos Reis que vem na Biblos Enciclopédica Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa; nas entrelinhas dele, creio que este professor de Coimbra vai deixando transparecer que a sua admiração pelo autor do Memorial do Convento não é muito grande. Bem vistas as coisas, não me parecem de valor garantido as qualidades que lhe atribui.
Mas ao lado de Carlos Reis, há os delirantes. Há até quem aproxime Blimunda de Nossa Senhora e atribua a Saramago a criação duma espécie de nova eucaristia!
Vindo porém a coisas mais comuns, as autoras do manual que uso, aqui já referidas, ao expor as «marcas essenciais» da linguagem literária de Saramago, começam a sua lista por esta: «a ausência de pontuação convencional, sendo a vírgula o sinal de pontuação de maior relevância, marcando as intervenções das personagens, o ritmo e as pausas». A segunda vai pelo mesmo caminho: «o uso subversivo da maiúscula no interior da frase».
Se estas fossem as principais, logicamente a seguinte deveria ser a de que ele não dá erros ortográficos (salvo algumas gralhas[1])… Depois vêm contudo outras já mais criticamente válidas.
Mas o que não se encontra na lista destas «marcas essenciais» é a referência ao vocabulário do tipo de «merda e mijo».
Num país de longa tradição e maioria católica, no ano anterior os alunos do 12.º ano tiveram de comentar esta original opinião de Óscar Lopes: «Memorial do Convento […] traça do século XVIII uma visão extraordinária».
Mas se romance se ocupa só de cerca dum quarto de século, como há-de ele dar a visão do século todo? E depois de D. João V não houve o Marquês de Pombal? Barroco e Neoclassicismo é tudo o mesmo? Distorcendo esta narrativa tanto a verdade histórica, onde pode estar o carácter extraordinário dessa visão?
Eu não sou historiador, mas apelo para um, o autor do artigo sobre D. João V na Enciclopédia Verbo. Há real parecença entre este D. João V da história e o de Saramago? Entre o padre Bartolomeu da história e o do romance, penso que medeia um abismo…
A palavra saramago designa originalmente uma erva daninha[2]. Eu conheci-a muito bem nos campos minhotos, a ela e à soagem, que andavam quase sempre juntas. Mas o dicionário do meu computador só apresenta saramago com maiúscula…

[1] Na edição que uso (21.ª), na página 145, ao fundo, aparece este título em latim «Iuris ecclesiastici libri tre, Colectanea doctorum tam veteram quam recentiorum in ius pontificum universum […]»; mas as palavras tre e veteram estão erradas, por tres e veterum.
[2] Digo daninha, porque foi sempre assim que a vi tratada, por infestar as culturas; se noutros lugares pessoas a usavam para alimento, eu nunca tive essa experiência.

22 maio 2007

«MEMORIAL DO CONVENTO»: BLASFÉMIA E MILAGRE

D. Duarte de Bragança terá sido das pessoas que melhor se pronunciaram sobre Saramago quando o escritor recebeu o Prémio Nobel. Disse então:
«É um autor de leitura difícil e pesada, que insulta abertamente os sentimentos cristãos. Duvido que os membros do júri tenham lido os seus escritos. É como se tivéssemos ganho o campeonato de futebol: é bom, mas não tem muito conteúdo».
Vindo ao meu título, blasfémia e milagre caminham de mãos dadas ao longo das páginas do Memorial do Convento. A blasfémia, já a conhecíamos de muitos autores, de Eça a Guerra Junqueiro, de Pessoa a Torga e certamente a outras sumidades das Letras que me honro de conhecer mal. Mas aqui ela requinta: é gratuita e constante. Além disso, vai directa ao coração do Cristianismo: à Trindade Santíssima, aos Sacramentos, aos Santos, aos Sacerdotes e aos Monges, à Sagrada Escritura.
Uma das mais primárias e ridículas é a que se contém nas frases seguintes:
«Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, é o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mãe esquerda».
Este padre Bartolomeu de Saramago usa a lógica da batata: não se fala duma coisa, logo ela não existe. Antes de Colombo, não existia a América.
Por sinal a Sagrada Escritura até fala da esquerda de Deus:
Quando o Filho do homem vier em sua glória com todos os seus anjos, então se assentará no seu trono glorioso. (…) Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos, à esquerda. E o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui peregrino e me acolhestes, estive nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, estava na cadeia e viestes ver-me’. E os justos perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? (…)
Depois dirá aos
da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos!' (cap. 25 do Evangelho de S. Mateus).
O «povinho» de Saramago é muito diferente do dos dirigentes políticos de esquerda. Veja-se como ele acompanha um auto de fé: «Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris», cospe o mesmo povo para os condenados, atira-lhes «cascas de melancia e imundícies». Este não é o povo sábio, aquele que «mais ordena», é mais ao modo de Salazar.
Não admira por isso que seja crédulo. E nem o é tanto por força da pregação oportunista dos clérigos, coisa que Saramago descobre em muitas ocasiões. Não, ele cria os seus milagres, que os clérigos secundam, ampliam e também criam. Vive-se num mundo de maravilha – ao serviço do ridículo e do sarcasmo. Até Blimunda é uma personagem milagrosa; até a passarola voa por um milagre!
Um mundo de confusão, de crença tonta e … de Santo Ofício. Que mundo povoa a cabeça de Saramago!

16 maio 2007

O «MEMORIAL DO CONVENTO» OU O REI QUE VAI NU

Há talvez uns sete anos, uma colega insistiu comigo para que lesse Saramago, que ia gostar. E dizia que já tinha um dia convencido certa professora, que depois se entusiasmara com a obra do escritor. Mas eu mantive-me na minha: não achava que ele tivesse nada de interessante para me dizer. Achava-o rude e preconceituoso e tinha muito mais com que me ocupar.
Este ano porém não pude evitar o Memorial do Convento, pois tinha de acompanhar os meus alunos na sua leitura.
Dizer que foi para mim uma decepção não é muito correcto, pois as minhas expectativas não eram altas; mas dizer que não gostei é a inteira verdade.
Que rudeza, que primarismo! E mentiras como não esperava!
Penso que a intenção que comanda o autor é ridicularizar a Igreja, aquela Igreja em que me integro desde que me conheço e a que tenho dedicado muitos dos melhores momentos da minha atenção e da minha vida.
Saramago sabia com certeza que o projecto inicial do Convento de Mafra era o dum edifício muito modesto, para 13 frades, coisa à altura duma família nobre mais abastada. Mas isso não o diz ele, preocupado em convencer o leitor de que os frades arrábidos eram uns grosseiros oportunistas e o rei, um tonto. Mas uma coisa é a verdade e outra o seu falseamento.
Neste memorial tão atento a miudezas, como os dos nomes dos trabalhadores ou duma pedra muito grande que é transportada para as obras, não consta afinal o resultado: uma descrição da grandiosidade do convento construído, da sua imponente fachada, da sua magnífica basílica ou da sua biblioteca, por exemplo.
Um pormenor com que muito embirrei, entre outros, foi aquele de insinuar que as pessoas acreditavam que as imagens dos santos tinham ficado a conversar entre si na noite que precedeu a sua colocação nos respectivos nichos ou lugares. O autor, que na cerimónia de recepção do seu Prémio Nobel afirma que descobriu num popular analfabeto o homem mais sábio que conheceu, faz muito baixo conceito dos trabalhadores e populares de Mafra. Eles eram sem dúvida bem mais inteligentes do que o romancista insinua.
Eu conheço relativamente pouco sobre o P.e Bartolomeu de Gusmão. É certo que ele podia ter sido um cientista de sucesso, pois começou bem e tinha um projecto ousado: queria mesmo voar e talvez essa meta lhe não fosse inacessível. Mas não concretizou o seu sonho, e o Santo Ofício pouco ou nada há-de ter contribuído para isso, ao contrário do que na sua cegueira Saramago quer fazer crer. Mas chegar a dizer que ele descria de todo o Catolicismo, que recuara a judeu… parece-me demais.
As autoras do manual de que me sirvo são cá duma inteligência bem rara! Dizem elas do P.e Bartolomeu que este «cientista ignora os fanatismos religiosos da época e questiona todos os princípios dogmáticos da Igreja». E falam das «suas inabaláveis certezas científicas», dizem que a Inquisição o «acusa de bruxaria»; que «a sua obsessão de voar domina-o de tal forma, que não se inibe de integrar no seu projecto um casal não abençoado pela Igreja e de aceitar e usufruir das capacidades heréticas de Blimunda, que farão a passarola voar».
Que confusão aqui vai! De quem estarão elas a falar, do P.e Gusmão da História ou do P.e Gusmão de Saramago? Chama-se «cientista» de «inabaláveis certezas» quem quer voar na base de vontades reunidas dentro de esferas? Isso não sabe mesmo a pretensão de bruxaria?
Quem é que associou a si «um casal não abençoado pela Igreja», foi o P.e Bartolomeu da História ou o de Saramago? As capacidades de Blimunda são «heréticas»? Como assim? Não são antes como a lâmpada de Aladino, só magicas, isto é, nada?
Que primarismo por aqui anda, que primarismo enche as páginas deste memorial!
A Inquisição foi extinta há cerca de 180 anos. Porque será que ela apoquenta tanto Saramago, que tão pouco se doeu com o Gulag soviético, tão próximo dele e de nós, com os mortos do regime cubano, de tantos outros regimes que ele bem conheceu?
Como o rei vai nu!

Nota
- Na sua sanha de denegrir tudo o que respeita ao Convento, Saramago cuida de lembrar que na sua construção houve muitos feridos e mortos, sem dizer quantos. É provável que a média não fosse muito diferente da de outras obras europeias de grande envergadura. Aliás a construção civil ainda hoje é uma actividade com mortes frequentes. Pelos vistos, uma obra em que as mortes tiveram dimensão de hecatombe foi o Canal do Suez: 120.000!

28 abril 2007

OS PALÁCIOS D’«OS LUSÍADAS» (fim)

Os «régios paços» do Samorim

Agora temos um palácio real, não de fantasia. Camões dá-se conta da sua superioridade relativamente ao que havia na Europa:

Já chegam perto, e não [com] passos lentos,
Dos jardins odoríferos fermosos,
Que em si escondem os régios apousentos,
Altos de torres não, mas sumptuosos;
Edificam-se os nobres seus assentos
Por entre os arvoredos deleitosos:
Assi vivem os Reis daquela gente,
No campo e na cidade juntamente.

O palácio esconde-se numa enorme cerca, ao modo oriental. Por isso, como se diz nos dois versos finais, o Samorim atinge um anseio bem nosso contemporâneo, o de viver «no campo e na cidade juntamente», o de ter a liberdade, a comunhão com a natureza, a pureza de ares do campo e as comodidades urbanas.
Atente-se na informação sobre a inexistência das torres, ao contrário do que se passava nas cidades submarinas e na Europa.
Ao modo do que sucedera com as portas das cidades do fundo do oceano, aqui as portas da cerca ostentam painéis historiados que contam a história da Índia na sua ligação ao mundo ocidental pelas intervenções sucessivas de Baco, Semíramis e Alexandre Magno:

Pelos portais da cerca a sutileza
Se enxerga da Dedálea facultade,
Em figuras mostrando, por nobreza,
Da Índia a mais remota antiguidade.
Afiguradas vão com tal viveza
As histórias daquela antiga idade,
Que quem delas tiver notícia inteira,
Pela sombra conhece a verdadeira.

Estava um grande exército, que pisa
A terra Oriental que o Idaspe lava;
Rege-o um capitão de fronte lisa,
Que com frondentes tirsos pelejava
(Por ele edificada estava Nisa
Nas ribeiras do rio que manava),
Tão próprio que, se ali estiver Semele,
Dirá, por certo, que é seu filho aquele.

Mais avante, bebendo, seca o rio
Mui grande multidão da Assíria gente,
Sujeita a feminino senhorio
De ua tão bela como incontinente.
Ali tem, junto ao lado nunca frio,
Esculpido o feroz ginete ardente
Com quem teria o filho competência.
Amor nefando, bruta incontinência!

Daqui mais apartadas, tremulavam
As bandeiras de Grécia gloriosas
(Terceira Monarquia), e sojugavam
Até as águas Gangéticas undosas.
Dum capitão mancebo se guiavam,
De palmas rodeado valerosas,
Que já não de Filipo, mas, sem falta,
De progénie de Júpiter se exalta.

«Inclinai por um pouco a majestade»

Se para o rei de Melinde há «nobres paços», para o Samorim «régios apousentos», que haverá para D. Sebastião a quem o poeta trata tão majestaticamente? Preste-se atenção a estes versos:

Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: ...

Como Júpiter, como Neptuno ou Baco, o rei ocupa um lugar superior; é de lá, de um trono, que ele há-de estar atento à oferta do poeta. Mas estará ele só? Não estará antes num palácio com a sua corte? Ou estará numa espécie de anfiteatro, tendo a seu lado as Ninfas do Tejo, a quem antes o poeta se dirigira, e o Povo português o rei que governa e o poema exalta?

O Camões «humilde, baixo e rudo» é um sonhador. Com muita luz, com cristais e diamantes, ouro, pedrarias, riqueza sem limites, fabrica «na fantasia / fantásticas pinturas de alegria» (Canção X).
Estas antíteses de realidade e sonho, com os seus entusiasmos e as suas prostrações, não o afastam do maneirismo, confirmam-no como maneirista...

Sobre as imagens: a de cima representa Goa, não sei se no séc. XVI se XVII, com com as suas casas apalaçadas e remates pontiagudos, à europeia. Camões, pelo contrário, põe em evidência a diferença do palácio do Samorim: «altos de torres não, mas sumptuosos; (...) / assi vivem os Reis daquela gente, / No campo e na cidade juntamente.
A segunda imagem é o conhecido retrato de D. Sebastião por Cristóvão de Morais, de 1571.

26 abril 2007

OS PALÁCIOS D’«OS LUSÍADAS» (3)

Os «cristalinos paços singulares»

Dos paços de Neptuno vamos de imediato para «cristalinos paços singulares» que Vénus preparou na sua «alegre e namorada» (c. X, est. 143) «ínsula divina» (c. IX, est. 21) – que nunca é mencionada como Ilha dos Amores; Tétis, «a quem se humilha / todo o coro das Ninfas e obedece» (c. IX, est. 85) é naturalmente deusa ligada aos mares – e em concreto ao Atlântico, onde certamente possui o «Atlântico tesouro» donde há-de vir a baixela para o festim que vai dar.
Quis a Citereia que:

Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
D' amor feridas, pera lhe entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.

É nesses «paços radiantes / E de metais ornados reluzentes» que vai ter lugar o finíssimo festim de Tétis, com óptimas baixelas, fantásticas iguarias e vinhos, conversas argutas, acompanhamento musical:

Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
Pela mão, já conformes e contentes,
Subiam pera os paços radiantes
E de metais ornados reluzentes,
Mandados da Rainha, que abundantes
Mesas d' altos manjares excelentes
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Restaurem da cansada natureza.

Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
Se assentam dous e dous, amante e dama;
Noutras, à cabeceira, d' ouro finas,
Está co a bela Deusa o claro Gama.
De iguarias suaves e divinas,
A quem não chega a Egípcia antiga fama,
Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
Trazidos lá do Atlântico tesouro.

Os vinhos odoríferos, que acima
Estão não só do Itálico Falerno
Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
Com todo o ajuntamento sempiterno,
Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
Crespas escumas erguem, que no interno
Coração movem súbita alegria,
Saltando co a mistura d' água fria.

Mil práticas alegres se tocavam;
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cua voz dua angélica Sirena.

Compensa ir daqui dar uma olhadela à Máquina do Mundo, que continua este espaço «divino» de maravilha, pois parece que os Deuses marinhos, que às portas da sua cidade já tinham representações que lembravam altos temas do saber humano e divino, são mais dados a coisas de cultura que os olímpicos. Vejam-se as estrofes iniciais, onde aparecem esmeraldas e rubis e um globo de luz e transparência representa o Universo:

Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêm no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfície, claramente.

Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a Divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
Nunca s' ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte,

Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: – «O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.

Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfícia tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

A Máquina do Mundo é o espectáculo único, divino, presenciado por "olhos corporais".
Nas palavras de A. J. Saraiva, "é um dos supremos sucessos de Camões", "as esferas são transparentes, luminosas, vêem-se todas ao mesmo tempo com igual nitidez; movem-se, e o movimento é perceptível, embora a superfície visível seja sempre igual. Conseguir traduzir isto por meio da "pintura que fala" é atingir um dos cumes da literatura universal."
Esta «pintura que fala» (c. VIII, est. 41) ou descrição, opõe-se à «muda poesia» ou pintura propriamente dita, a que o poeta se refere quando escreve no canto VII est. 76:

...................................mas o intento
Mostrava sempre ter nos singulares
Feitos dos homens que, em retrato breve,
A muda poesia ali descreve.

Sobre a imgem: é de Francisco da Holanda, contemporâneo de Luís de Camões. Esta imagem «futurista» também representa a máquina do mundo.

24 abril 2007

OS PALÁCIOS D'«OS LUSÍADAS» (2)

A «casa etérea do Olimpo omnipotente»

A «casa etérea do Olimpo omnipotente» ou «luzente, / estelífero Pólo e claro assento» deverá ser como que o palácio original, o pai de todos os palácios. Ao chamar-lhe etérea, o poeta localiza-o na quinta-essência, no éter. Mas não se alonga a descrevê-la.
Observe-se que um palácio n’Os Lusíadas não é automaticamente um espaço isolado, à parte. Aqui, antes de se chegar, já se encontra um mundo de maravilha: os Deuses quando se dirigem para o Olimpo pisam «o cristalino Céu fermoso» e «vêm pela Via Láctea juntamente». Mas é quando se reúnem que essa «casa etérea» brilha:

Estava o Padre ali, sublime e dino,
que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano;
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com ua coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.

Júpiter apresenta-se de facto como uma figura imponente, no seu «assento de estrelas cristalino». Quanto aos deuses convocados, ocupam «luzentes assentos, marchetados / de ouro e de perlas»:

Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses, todos assentados
Como a Razão e a Ordem concertavam.

É um espaço refulgente, verdadeiramente olímpico.
(Porque será que o consílio acaba tão mal, em inqualificável «tumulto»?)


Os «paços de Neptuno»

Não fazendo caso de outros paços sobre que o épico pouquíssima informação dá, passemos já para os de Neptuno e para a cidade submarina onde ficavam.
Entramos num mundo fantástico. As areias são «de prata fina»; há «torres altas» «da transparente massa cristalina»: tudo parece cristal e diamante:

No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Lá donde as ondas saem furibundas
Quando às iras do vento o mar responde,
Neptuno mora e moram as jocundas
Nereidas e outros Deuses do mar, onde
As águas campo deixam às cidades
Que habitam estas húmidas Deidades.

Descobre o fundo nunca descoberto
As areias ali de prata fina;
Torres altas se vêem, no campo aberto,
Da transparente massa cristalina;
Quanto se chegam mais os olhos perto
Tanto menos a vista determina
Se é cristal o que vê, se diamante,
Que assi se mostra claro e radiante.

Repare-se nas esculturas das «portas d' ouro fino» que dão acesso à cidade, onde se evocam o caos, os quatro elementos, a Guerra dos Gigantes «e a primeira / de Minerva pacífica ouliveira»:

As portas d' ouro fino, e marchetadas
Do rico aljôfar que nas conchas nace,
De escultura fermosa estão lavradas,
Na qual do irado Baco a vista pace;
E vê primeiro, em cores variadas,
Do velho Caos a tão confusa face;
Vêm-se os quatro Elementos trasladados,
Em diversos ofícios ocupados.

Ali, sublime, o Fogo estava em cima,
Que em nenhua matéria se sustinha;
Daqui as cousas vivas sempre anima,
Despois que Prometeu furtado o tinha.
Logo após ele, leve se sublima
O invisíbil Ar, que mais asinha
Tomou lugar e, nem por quente ou frio,
Algum deixa no mundo estar vazio.

Estava a Terra em montes, revestida
De verdes ervas e árvores floridas,
Dando pasto diverso e dando vida
Às alimárias nela produzidas.
A clara forma ali estava esculpida
Das Águas, entre a terra desparzidas,
De pescados criando vários modos,
Com seu humor mantendo os corpos todos.

Noutra parte, esculpida estava a guerra
Que tiveram os Deuses cos Gigantes;
Está Tifeu debaixo da alta serra
De Etna, que as flamas lança crepitantes.
Esculpido se vê, ferindo a Terra,
Neptuno, quando as gentes, ignorantes,
Dele o cavalo houveram, e a primeira
De Minerva pacífica ouliveira.

Veja-se agora o ajuntamento divino, já «na grande sala, nobre e divinal» do palácio, quando se vai iniciar o consílio:

Já finalmente todos assentados
Na grande sala, nobre e divinal,
As Deusas em riquíssimos estrados,
Os Deuses em cadeiras de cristal,
Foram todos do Padre agasalhados,
Que co Tebano tinha assento igual;
De fumos enche a casa a rica massa
Que no mar nace e Arábia em cheiro passa.

Decorre então o consílio, que também há-de degenerar em tumulto, como o do Olimpo, e onde Baco será bem sucedido, conseguindo aliados activos contra os Portugueses.

Sobre a imagem: ela representa uma porta italiana com altos-relevos, como as do palácio de Neptuno, que «de escultura fermosa estão lavradas».

23 abril 2007

OS PALÁCIOS D’«OS LUSÍADAS» (1)

Perto do final da canção Vinde cá, meu tão certo secretário, escreve Camões:

Já de mal que me venha não me arredo,
nem bem que me faleça já pretendo,
que para mim não val astúcia humana;
de força soberana
da Providência, enfim, divina pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
para consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.

Os Lusíadas, que têm um lastro de lágrimas, globalmente enquadram-se certamente nas fantásticas pinturas de alegria de evasão que o poeta aqui diz fabricar. Os palácios que neles se mencionam ou descrevem são quase sempre sonho, fantasia. É sobre estas fantásticas pinturas que pretendo começar a dizer hoje algumas palavras. Para elas também pediu ele às Tágides o «estilo grandíloco e corrente», oposto ao estilo da Lírica.
Comecemos por nos perguntar que palácios é que Camões conheceria. Ele foi poeta palaciano, frequentou a corte. Conheceria o palácio da Ribeira, o de Sintra, o de Almeirim, o de Évora... Cá em Portugal.
Estes palácios podiam ser de cidade, integrados na malha urbana, ou do campo, isolados. Características eram as suas torres pontiagudas, certamente de imitação estrangeira. Mas não vamos agora investigar isso.

Se se pedisse a um dos leitores escolares d’Os Lusíadas (leitores obrigados) que indicasse qualquer coisa que no poema o tivesse realmente entusiasmado, não imagino que resposta se obteria. Este tema dos palácios quer-me parecer que se poderia tornar facilmente num ponto de partida motivador.
Aos palácios chama o poeta paços, ainda à maneira antiga que era a sua. De modo explícito, menciona seis: os «nobres paços» do rei de Melinde (c. II, est. 91), os «paços sublimados» de Afonso IV, pai da «fermosíssima Maria» (c. III, est. 102), os «paços de Neptuno» (c. VII, est. 14), os «paços» da corte londrina onde decorre o combate dos Doze de Inglaterra, os «régios apousentos» do Samorim (noutra ocasião mencionados como «régios paços») (c. VII, est. 14), os «cristalinos paços singulares» que Vénus prepara na Ilha dos Amores (c. IX, est. 41) e que depois vão ser descritos como «paços radiantes / E de metais ornados reluzentes» (c. X, est. 2).
Mas há mais. A «casa etérea do Olimpo omnipotente» (c. I est. 42) onde decorre o consílio dos Deuses e que no discurso de Júpiter é chamada «luzente, / estelífero Pólo e claro Assento» não será palácio? E como não falar de palácio – nunca referido sequer como casa – a respeito do lugar onde se encontra o «poderoso Rei, cujo alto Império / o Sol, logo em nascendo, vê primeiro, / vê-o também no meio do Hemisfério, / e quando dece o deixa derradeiro» (c. I, est. 8), isto é, da residência de D. Sebastião a quem o épico vai apresentar o seu canto?

Sobre a imagem:
ela representa o Palácio dos Duques de Bragança, em Barcelos, no século de Camões.

20 abril 2007

GOSTAVAS QUE TE FIZESSEM O MESMO?

Continuo a estudar o Memorial do Convento. Mas fico com a impressão de que os seus estudiosos – muitas estudiosas – não apreenderam a lição do autor: fazem dele um herói, quando ele é um destruidor de heróis.
É conhecida aquela anedota infantil em que uma formiga, que tinha sido calcada por um elefante, pergunta muito ofendida: «Gostavas que te fizessem o mesmo?»
Não seria legítimo demolir também a imagem de Saramago, em vez de o mitificar? Mostrar ao menos que o Memorial do Convento assenta principalmente na má vontade contra a Igreja?
Quanto à megalomania subjacente à construção do Convento, convém ter em conta que ele é produto do mesmo absolutismo que ergueu o Palácio de Versalhes, o Escorial e o Ermitage, etc.
O pessimismo e o sarcasmo de Saramago parecem sugerir o abastardamento de toda a sociedade civil e da vida de todos os conventos e mosteiros e do clero não regular naquelas décadas do séc. XVIII. Mas jamais algum historiador pintou assim aquele período. Os documentos não permitem a afirmação de tal enormidade.
Saramago não deixou de mencionar a Inquisição, o que é historicamente aceitável, mesmo que um pouco surpreendente num autor que esteve ao lado de regimes contemporâneos tão inquisitoriais como é bem conhecido e que nunca denunciou (a não ser há alguns anos o regime cubano, que em cerca de 50 anos matou lá para 17.000 mil pessoas)[1].
Durante os três séculos da sua existência, foram mortas à conta da Inquisição portuguesa (a palavra final de morte era dada pelo Rei) um pouco mais que 1.500 pessoas. Importunadas pelo tribunal, foram lá para 32.000 (como consta dos processos). Números assustadores, mas bem pouco significativos se os comparamos com os de regimes recentes (segundo o livro Mao: a História Desconhecida, o fundador da República Popular da China, para obter a bomba atómica, aceitava deixar morrer metade da população do país…).
Durante a vigência do Santo Ofício, o poder civil enforcou muitas pessoas; ainda hoje se conserva memória dos lugares onde então se erguia a forca. Não sei se alguém já tentou fazer as contas, mas sou levado a crer que terão sido mais numerosas as vítimas dos tribunais civis que as da Inquisição (fica a impressão de que não havia concelho que não tivesse possuído a sua forca).
Por muito louco que tenha sido o projecto de D. João V sobre o Convento, por muito desumanas que tenham sido as condições de trabalho ao construí-lo, a verdade é que ele está lá e é duma grandiosidade e duma beleza que impressionam. Isso não é dito no romance que afirma ser o seu memorial.

[1] É conhecido um episódio ocorrido em Agosto de 1975 em que Saramago saneia 24 colegas seus do Diário de Notícias, ao jeito inquisitorial.

19 abril 2007

SEGUNDO ANIVERSÁRIO DA ELEIÇÃO DE BENTO XVI

O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, faz um balanço muito positivo do actual pontificado e considera que a China e a América Latina serão as prioridades de Bento XVI no seu terceiro ano como Papa.
Em entrevista à RAI, este responsável assinalou que “Ratzinger imprimiu um estilo que dá continuamente as razões da sua esperança. É um Papa rigoroso e claro, com uma grande capacidade de escuta e capaz de dizer a palavra certa a cada um, como se fosse um seu amigo de sempre”.
O Cardeal Bertone diz mesmo que "se todos os pregadores e catequistas imitassem Bento XVI no anúncio cheio de alegria, convicção e entusiasmo, creio que aumentaria no mundo a curiosidade e a sede de conhecimento, mas também a alegria de ser cristão”. Agência Ecclesia
Como encaixar aqui o tendencioso, o malévolo prognóstico de Saramago de há dois anos quando sentenciou do alto do seu Prémio Nobel: «A Inquisição subiu ao poder»?

17 abril 2007

HOUVE MUITOS VALENTES ANTES DE AGAMEMNÃO

António José Saraiva escreveu uma vez que A. Cunhal, para o seu partido, era como o Papa: ele falava e logo os seus seguidores o repetiam reverentemente. Parece que agora a comparação vale para J. Saramago. Ele diz e imediatamente, sem cuidados críticos, muitos o repetem com devoção.
Mas, como «houve muitos valentes antes de Agamemnão»[1] (Horácio), também houve muitos sábios antes de Saramago. A única atitude respeitadora face a ele – tão altivo e tão afirmativo – é a de exigência crítica. É essa que pretendo agora que vou começar a acompanhar os meus alunos na leitura de o Memorial do Convento.
Vejam-se estas frases, escritas por José Fernandes Pereira, a respeito do mesmo convento, na História da Arte Portuguesa, ed. do Círculo Leitores, 1995, vol. III, págs. 61-62:

No primeiro documento oficial, alvará de Dezembro de 1711, D. João V manda construir «por esmola», em Mafra, um convento dedicado a Santo António que seria entregue à província da Arrábida que disponibilizaria treze religiosos para nele assistirem. (…) os estatutos dos Arrábidos eram muito claros quanto ao modo de aceitar, por esmola, a doação de novos conventos, e também quanto ao programa cons­trutivo: «os Conventos, que se houvessem de aceitar, ordenava que fossem em tudo, e de tudo muito pobres, os materiais de adobes, e as madeiras tos­cas, excepto as da Igreja, e Sacristia, na qual não haveria ornamento de tela, ou seda, senão de lã...». Os Arrábidos foram sempre extremamente zelosos no cumprimento destas disposições que, como se verá, de modo algum fo­ram respeitadas em Mafra.
(…) Por tradição e pelos estatutos, os Arrábidos aceitavam, por esmola, novos conventos desde que fossem os frades a gerir a sua construção que, nenhum caso, poderia fugir de uma tipologia e de um carácter de sim­plicidade e pequenez há muito tipificado. Ora o alvará de 1714 revela sibilinamente que a obra a erguer em Mafra seria régia, controlada desde Lisboa pelo rei e que aos frades competia apenas aceitar o presente, ainda que enve­nenado.
Fá-lo-ão com pouca convicção e após parecer jurídico do arcipreste da Patriarcal de Lisboa, expresso em 1730, e segundo o qual os Arrábidos po­diam sem escrúpulo aceitar obra tão luxuosa para a qual a «Real Magnifi­cência» não tinha sequer que lhes solicitar consentimento.

[1] Vixere fortes ante Agamemnona multi.

16 abril 2007

AS BEM-AVENTURANÇAS SEGUNDO S. LUCAS

Jesus falou frequentemente à multidão. O trecho seguinte reflecte esse tipo de comunicação, pois conserva marcas oratórias bastante nítidas. É a versão das Bem-aventuranças que vem no Evangelho de S. Lucas. Vejamo-la:

Felizes vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus!
Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados!
Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir!
Felizes sereis quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem!
Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu; era precisamente assim que os pais deles tratavam os profetas!
Mas ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação!
Ai de vós, os que agora estais fartos, porque haveis de ter fome!
Ai de vós, os que agora rides, porque vos gemereis e chorareis!
Ai de vós, quando todos disserem bem de vós! Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas!

Lc 6, 20-26

A primeira observação é esta: ao contrário de S. Mateus, cuja proclamação das Bem-aventuranças é um bloco homogéneo de oito declarações pela positiva, «eufóricas», aqui temos dois blocos: um de quatro bem-aventuranças, outro de outras tantas declarações de infelicidade, imprecações – mal-aventuranças, diríamos.
E trata-se de blocos antitéticos: aos pobres opõem-se os ricos; aos que têm fome contrapõem-se os que «estais fartos», etc. Aliás lá está a habitual conjunção adversativa «mas» a fazer a separação das águas...
Além da antítese, o texto dá grande relevo à anáfora e ao paralelismo. A reunião dos três processos – antítese, anáfora e paralelismo – alerta-nos de imediato para o efeito oratório da proclamação. Indubitavelmente, com esta formulação ela ganha solenidade.
Por outro lado, os mesmos processos lembram-nos textos antigos, como salmos e literatura sapiencial da tradição vétero-testamentária.
Repare-se também no uso da segunda pessoa verbal, da interjeição...
Mas há mais dois processos a relevar. Comecemos pelo paradoxo. Realmente tem muito de paradoxal declarar felizes os pobres ou os que têm fome. Quem de nós desejaria essa felicidade?
O paradoxo é aliás bastante comum em S. Lucas e indica uma orientação importante do terceiro Evangelho: o radicalismo da força transformadora da sua mensagem, que às vezes tem ares modernos de esquerda.
Trata-se de uma orientação muito fácil de ilustrar: no presépio, Jesus não tem a visita de sábios nem de piedosos, mas de pastores, considerados marginais, por não poderem frequentar a sinagoga. Foram esses que Jesus Menino quis como primeira companhia não familiar. Ao filho pródigo que, no seu regresso, se contentava com ser aceite como criado pelo pai, este dá-lhe uma festa (que escandaliza o irmão mais velho). Na Cruz, a um dos ladrões bastam algumas palavras de atenção para com Jesus para que ele lhe garanta que «hoje mesmo» estará consigo no Paraíso – sem passar longo período no Purgatório… –, etc.
Há muita coisa desconcertante, inesperada neste evangelho.
Atentemos ainda num outro processo, especificamente bíblico. Trata-se do que cremos chamar-se a «viragem ao passivo».
«Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados!» Saciados por quem?
O judeu piedoso, por respeito, evitava pronunciar o nome de Deus: Ele só deveria ocorrer em contexto de muita veneração. E encontravam-se estratagemas para conseguir este objectivo. Certamente um dos mais conhecidos será o que aqui se verifica e que consiste em transpor o verbo para a passiva, sem mencionar o agente, que era identificável pelo contexto. A parte final da frase podíamos traduzi-la assim, na nossa linguagem menos respeitadora do segundo mandamento: «porque Deus vos consolará».

13 abril 2007

«FELIZMENTE HÁ LUAR!»

Esta obra dramática foi publicada em 1961, em pleno período salazarista e no ano em que os movimentos independentistas iniciaram a luta armada nos territórios ultramarinos, pouco tempo após o afastamento de Humberto Delgado.
A sua acção tem uma larga base histórica e reporta-se a uma pouco clara tentativa abortada de conjura contra o poder absolutista que em 1817 dominava o país na ausência do Rei, que se encontrava no Brasil desde 1807.
O pesadelo napoleónico que atormentara a Europa baqueara três anos antes em Waterloo; as monarquias europeias respiravam de alívio e afirmavam o absolutismo.
O herói da peça militara nas fileiras do exército imperial francês.
Como podia ele apesar disso tornar-se o porta-bandeira duma sublevação revolucionária?
Por muitas contradições que a experiência da Revolução Francesa encerrasse, com os seus momentos de terror e a aventura imperialista de Napoleão, a verdade é que um regime absolutista se tornava também facilmente odioso. O nosso atraso era gritante e Portugal vivia uma situação política e económica que não era de molde a deixar ninguém muito sossegado.
Felizmente há luar! é uma obra de influência brechtiana, de teatro épico, de pensamento esquerdista. Na perspectiva do autor, o momento político que se vivia em 1817 teria um paralelismo muito próximo com o de 1961: as prepotências dos governadores mostravam como em espelho as do regime contemporâneo; nas duas épocas havia quem enfrentava o poder.
Neste sentido, a obra é um panfleto anti-regime. Com uma clareza possivelmente excessiva, simplista, ela contém dois grupos de pessoas: o dos bons, vistos como muito bons; e o dos maus, vistos como incorrigível e agressivamente maus.
Deve-se também notar que durante o primeiro acto não há propriamente acção; é um acto feito de conversa, sem conflito, sem confronto. O segundo é mais vivo, conflituoso, mesmo que o inconformismo militante da sua protagonista, Matilde, seja historicamente pouco verosímil; as grandes tiradas quase oratórias com que afronta o Principal Sousa assentam numas ousadias teológicas às vezes pouco consequentes e dificilmente imagináveis numa mulher pouco culta do princípio daquele século. Fr. Diogo quando diz que «se há santos, Gomes Freire é um deles», esquece-se que aquele general aventureiro era mação e que portanto não se confessava; mais, que era um inimigo declarado da Igreja (Igreja que sabia o que a chegada do Liberalismo poderia significar para ela, como depois se verificou).
É preciso mesmo querer dizer bem da obra para não notar estas e outras incoerências.
António José Saraiva fala de escritores, «ditos empenhados», que «se alistavam nesta escola (neo-realista), que era facilmente acessível a um homem mediano que quisesse resgatar-se da sua condição de “burguês” ou de letrado, pelas suas “boas obras”, mesmo sem a graça do mérito gratuito, ou seja, da vocação artística». Parecer ser o caso de Sttau Monteiro, filho de ministro salazarista e corredor de Fórmula 2.
Sobre Freire de Andrade, consulte: http://www.arqnet.pt/exercito/freire.html
Quanto às excelências do teatro brechtiano, é de perguntar em que medida contribuiu ele para libertar os países da Cortina de Ferro do jugo soviético.

Sobre a imagem: é um fragmento dum inventário de 1800 onde foi posteriormente dada baixa das peças que foram para o Junot: Genô na escrita do anotador. Também se diria que foram para o Janota, que é mais ou menos a leitura inglesa do nome Junot, ou «para o Maneta».

03 abril 2007

VIA-SACRA DA BEATA ALEXANDRINA

Coloco aqui a Via-Sacra da Beata Alexandrina. Afinal, é uma especialista da Semana Santa. Podia ter-lhe dado o título de Passos da Cruz, imitando o da série de 14 sonetos de F. Pessoa (14, como as estações da Via-Sacra), mas não paga a pena.
No Sítio Oficial pode-se ver a sua tradução para japonês e se não erro também as suas versões portuguesa, italiana, francesa e inglesa.
A italiana foi feita a partir do português; a japonesa e a portuguesa, a partir do italiano; as restantes a partir da tradução portuguesa. A versão que aqui fica não é tradução: contém as palavras originais da Beata Alexandrina.
Se se pergunta porque é que não se partiu sempre do original português, respondo por mim: eu conheci a
Via-Sacra pela primeira vez através dum desdobrável italiano, publicado em Milão, que traduzi e a partir do qual promovi as outras traduções.
A imagem que junto é, segundo penso, um fragmento do original português a partir do qual foi feita a tradução para italiano. As indicações ao lado esquerdo indicam a procedência das frases, creio que sempre dos
Sentimentos da Alma, a obra maior da Beata.


Prólogo


Ai, quanto custou a Jesus a Sua vida na Terra!
Não foi o Horto e o Calvário sofrimento de umas horas,
Mas sim de toda a vida de Jesus.
Ele crescia em idade e sabedoria,
E nele e com Ele crescia a cruz.
Ele não Se separou dela por um só momento:
Nela crescia, nela sofria,
Mas sempre com sorriso e bondade.


1ª Estação: Jesus é condenado

Pilatos entregou-Lho para ser crucificado, e eles tomaram conta de Jesus
. (Jo 19, 16)

Vi e ouvi a grande multidão
Que a uma só voz, sem se condoer de mim,
Bradava a minha crucifixão.
Os meus ouvidos ouviam, a uma só voz, a palavra:
«Morra! Condene-se!»
Oh, que gritos, os da multidão!
Recebi a sentença de morte.

Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre! Ámen.


2ª Estação: Jesus recebe a cruz

E Ele, levando a cruz às costas, saiu para o chamado lugar da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota. (Jo 19, 17)

Recebi a cruz.
Foi tal o peso que me fez sentir que me infundia no solo.
Não foi a cruz que levei em meus ombros, foi o mundo inteiro.
Poucos amigos... Quase só inimigos.

Glória ao Pai…


3ª Estação: Jesus cai pela primeira vez

Procurei, mas não havia ninguém para me auxiliar.
Fiquei espantado por não haver ninguém para me ajudar
. (Is 63, 5)

Caí com a cruz: ela pesava sobre mim.
Um braço dela caiu-me sobre o peito e feriu-me o coração.
Parecia-me mesmo, mesmo perder a vida.
Perder a vida para dar vidas deu-me forças: voltei a caminhar.

Glória ao Pai…


4ª Estação: Jesus encontra a Mãe

Jesus vê a sua Mãe ali presente. (Jo 19, 26)

Saiu-me ao encontro a Mãezinha.
Fitou-me; eu fitei-a a Ela.
Ia caminhando sempre.
Ela caminhava, guiada pelo olhar
Que Lhe tinha ferido e atraído o coração e a alma.
Eu não arrastava só a cruz: arrastava-A também a Ela, ou melhor, arrastava a Sua dor.

Glória ao Pai…


5ª Estação: Jesus é ajudado pelo Cireneu

Quando O iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene e carregaram-no com a cruz. (Lc 23, 26)

Ia a cada passo a expirar.
Queriam alguém que levasse a cruz:
Houve quem caminhasse com ela, não por amor, mas por ser mandado.
Mas, mesmo assim, quanto amor senti o meu coração dispensar-lhe!
Foi-me tirada a cruz, mas eu sentia-me como se sempre levasse o seu peso.

Glória ao Pai…



6ª Estação: Jesus encontra a Verónica

Em verdade vos digo, sempre que fizeste isso a um destes mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes. (Mt 25, 40)

Vem ao meu encontro a mulher, a mulher querida, compadecida da minha dor.
Com que ternura e amor limpa do meu rosto o suor, o sangue, o pó!
Como queria que ela fosse falada por este gesto tão heróico!
O meu rosto e o amor do meu coração ficam no pano impressos.

Glória ao Pai…



7ª Estação: Jesus cai segunda vez

Ele entregou a sua vida à morte e foi contado entre os pecadores. (Is 53, 12)

A meado do caminho, foi tão grave a queda
e a descarga de açoites que sobre o meu corpo caíram!
Os lábios abriram-se-me em sangue…
E beijavam a terra na qual me feria.
Os olhos da minha alma estenderam-se pela humanidade.

Glória ao Pai…


8ª Estação: Jesus encontra as santas mulheres

Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, mas chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos. (Lc 23, 28)

Seguiam-me algumas mulheres;
choravam amargamente à vista de tantos sofrimentos.
Caminhava e fitava-as com olhar de compaixão.
O coração murmurava-lhes:
«Não choreis por mim, mas por vós;
Chorai as vossas culpas: são a causa das minhas dores».

Glória ao Pai…


9ª Estação: Jesus cai terceira vez

Reduziste-me ao pó da terra, estou cercado por matilhas de cães.
(Sl 22, 16-17)

Era o mundo, era o Céu contra mim! Caí.
Um novo furor me arrastou fortemente e fez bater nas lajes:
Novas fontes de sangue se abriram dos espinhos da minha cabeça!
Mas, mesmo assim, do meu coração só saía amor e compaixão pelos algozes.

Glória ao Pai…


10ª Estação: Jesus é despido

Repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para ver o que cabia a cada um. (Mc 15, 24)

Ao serem-me tirados os vestidos,
foram tirados com tanta pressa que chegaram a rasgar-me.
Que dores violentas ao irem com eles pedaços de carne!
Ser despido em público!
Foram tantas as risadas de escárnio que ecoavam em todo o Calvário!
Senti logo que a Mãezinha queria com o seu manto cobrir-me.

Glória ao Pai…


11ª Estação: Jesus é crucificado

Foi crucificado com os malfeitores, um à sua direita e outro à sua esquerda. (Lc 23,33)

Estenderam-me na cruz.
Fui eu a deitar-me sobre o madeiro
E a estender as mãos e os pés para ser crucificado:
Era um abraço eterno à cruz, a obra da Redenção.
Que olhares tão enternecidos saíam dos meus olhos a fitarem o firmamento, a movê-lo à compaixão!

Glória ao Pai…


12ª Estação: Jesus morre na cruz

Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». Depois, inclinou a cabeça e entregou o espírito. (Jo 19, 30)

Fez-se noite no Calvário.
- Pai, perdoai-lhes, que não sabem o que fazem!
- Pai, ó meu Pai, até Tu me abandonas!...
- Meus filhos, tenho sede de vós!
- Minha Mãe, aceita o mundo, que é Teu!
É filho do meu sangue, é filho da tua dor.
- Está tudo consumado!
- Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito:
É para Ti o meu último suspiro

Glória ao Pai…


13ª Estação: Jesus é deposto no regaço da Mãe

E José de Arimateia tomou o corpo e envolveu-o num lençol limpo. (Mt 27,59)

A Mãe, com Ele morto nos Seus braços!
Foi o amor que levou Jesus a dar a vida.
A Mãezinha continua a mesma missão do amor:
A amar-nos como a Jesus.

Glória ao Pai…


14ª Estação: Jesus no sepulcro

José depositou-o num sepulcro talhado na rocha, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. (Lc 23,53)

O amor, unido à graça e à vida divina,
Triunfou na dor, triunfou na morte.

FOI UM SER HUMANO QUE SOFREU,
UMA VIDA DIVINA QUE VENCEU.

Glória ao Pai


Epílogo

Ó Calvário glorioso! Ó cruz de salvação!
O sangue regou a terra:
Um orvalho fecundo, um orvalho de amor.
Ficou o Céu reconciliado com a Terra!
Um som harmonioso encheu o Céu a Terra!

31 março 2007

O JEJUM DA BEATA ALEXANDRINA NA IMPRENSA DO SEU TEMPO

Um dia, numa página da Internet, eu fui humilhado por causa dumas afirmações que fiz sobre a Beata Alexandrina. Recordo-me que então se falou do jejum. Embora eu soubesse que estava a dizer a verdade, não dispunha na altura de modo de provar irrefutavelmente o que afirmava. Hoje é diferente.
O seu jejum é um desafio lançado à nossa mentalidade que valoriza o facto objectivo e inapelável; mas é extraordinário e verdadeiro.
O nome da Alexandrina aparece na imprensa pela primeira vez em 1941, pela mão do P.e José Alves Terças, com a reportagem sobre «A Martirizada do Calvário».
Em meados de 1944, foi posto nas bocas do mundo quando foi divulgada a infeliz nota dimanada da Cúria bracarense que negava que houvesse alguma coisa de extraordinário, isto é, de sobrenatural, no que àquela «martirizada» dizia respeito.
Em Janeiro de 1947, uma alusão desprimorosa à Alexandrina num artigo do P.e José Agostinho Veloso saído na Brotéria, com o título de «Mística e Jornalismo», levou o Dr. Azevedo a ripostar-lhe n’O Comércio do Porto, em Fevereiro, sob o título de «Resposta a uma frase da revista “Brotéria”».

Uma reportagem do Jornal de Notícias

No final do ano, em 4 de Novembro, o Jornal do Notícias faz sair uma reportagem com este título bem sugestivo: «Uma mulher que não come nem bebe há seis anos e vive perfeitamente». Sem assinatura, o trabalho é provavelmente da responsabilidade do director do diário; integra-o uma breve entrevista à Alexandrina e fotografia do exterior da sua casa. O autor adopta uma atitude respeitosa, embora deixe transparecer algumas reservas, por cautela.
Veja-se este belo retrato que faz da Doente do Calvário:

A Alexandrina, de sorriso aberto, espera talvez que lhe dirijamos a palavra. O rosto é sobre o comprido, a boca rasgada, a pele branca, um tudo-nada rosada. Seus olhos são pretos, duma luz brilhante, e os cabelos, também negros, emolduram-lhe a fisionomia numa expressão de simpatia desafectada; tem 43 anos, mas não figura mais que 33.

E agora a entrevista:

- Disseram-nos que não se alimenta.
- É verdade. Deixei de comer e de beber há seis anos.
- Mas não tem apetite?
- Estou sempre enfartada.
- Repugnam-lhe os alimentos?
- Não. Por vezes sinto até saudades deles.
- Então porque não aproveita essas ocasiões para tentar uma alimentação ligeira?
- Não posso. Sinto-me bem.
- Mesmo bem?
- É como quem diz: Passo bem, passando mal.
- Há que tempo está doente?
- Trinta anos. Só há 13 é que tive a primeira grande crise. Dessa vez, torturada pelo vómito, sofri um jejum de 17 dias. Vieram depois outras crises, menos prolongadas. Quando elas passavam, voltava a comer. Por fim, quase só o comia fruta. Mas há seis anos veio a crise definitiva. Então deixei os alimentos por completo.
- O seu aspecto não deixa perceber isso.
- Cada um sabe de si. Compreendo que a minha doença tem despertado curiosidade e murmurações. Aflige-me que tal suceda: desejaria que não se preocupassem comigo. De mim já se tem falado demais. Se estivesse no meu poder, metia-me num buraco.
A Alexandrina fala porém sem aborrecimentos – fala naturalmente, dizendo o que sente. Essa simplicidade é transparente. Sofre, por certo, mas resiste com alegria, couraçada por uma decidida força espiritual, a sua fé.
Insistimos no interrogatório:
- E os médicos?
- Os médicos – não dizem nada. Todas as semanas vem aqui o Sr. Dr. Azevedo, mas não me receita remédios. Há cinco anos estive em observação numa casa e saúde do Porto. Foram 40 dias de vigilância apertada, rigorosa. Mas regressei – daí como havia entrado para lá.
Passava meia hora. A enferma estava visivelmente fatigada. Despedimo-nos, fazendo votos pelas suas melhoras. Sorrindo, ela agradeceu-nos.

Passemos à conclusão:

A despeito da normal perda de peso, (a Alexandrina) conserva uma frescura e resistência impressionantes. Finalmente, oferece o aspecto dum caso que a Medicina sabe em grande parte explicar, mas não deixa contudo de patentear alguns pormenores que, pela sua importância de ordem biológica, tais a duração da abstinência de líquidos e anúria, impõem uma suspensão, aguardando que uma explicação clara faça a necessária luz.
A ciência não é definitiva, como se vê. O que é incontroverso é o facto da doente viver há anos – sem levar à boca nem alimentos nem bebidas.

Na semana seguinte, o Dr. Dias de Azevedo publicou, no mesmo jornal e sob o mesmo título, um longo esclarecimento à mencionada reportagem.

Nas bocas do mundo

Se aos amigos mais chegados da Alexandrina não restavam dúvidas sobre o seu jejum, agora ouviam a palavra pública do seu médico assistente, garantida pela competência do conceituado director do Refúgio da Paralisia Infantil, Dr. Gomes de Araújo.
O ano de 1953 foi fértil em notícias onde o tema do jejum quase sempre aparece: saíram no Jornal de Notícias, por várias vezes, n’O Gaiato (desfavorável), no Diário do Norte (pelo menos quatro vezes, a favor) e no Jornal do Médico, onde um artigo do vilacondense Dr. Joaquim Pacheco Neves desencadeia um polémica com o Dr. Dias de Azevedo.

27 março 2007

E SE O OUTRO TIVESSE FICADO EM PRIMEIRO LUGAR?

Para este resultado, para a vitória de Salazar, arranjaram-se as explicações mais convenientes. Mas, e se tivesse sido o outro a ocupar o primeiro lugar? Ele, o discípulo de Lenine e de Estaline? Ele, o amigo de Fidel Castro e tantos outros grandes ditadores?
Eu continuo a pensar que a Esquerda só vê o que lhe convém.
Até já se culpa a educação! Mas, se os programas oficiais já exaltam tanto as excelências deste fantástico regime em que vivemos, que mais se lhe há-de acrescentar?
Eu sugeria que se acrescentassem: a relação honesta dos desmandos da Primeira República, o modo como ela tratou a Igreja e o fenómeno nascente de Fátima, as realizações do Estado Novo, o seguidismo esquerdista dos seus opositores…
Que se acrescentasse também como o pós-25 de Abril esteve a caminho de descambar numa totalitarismo mais duro que o de Salazar; que se culpasse quem disso foi responsável (em vez de querer criar pseudo-heróis); que se identificassem as grandes debilidades do actual regime, sem descarregar as culpas delas para o vizinho; que na disciplina que lecciono – o Português – se exigisse um maior pluralismo quer nos manuais quer nas propostas de leitura vindas do Ministério, etc., etc.
Veja-se se muitas das palavras que em 19 de Abril de 2003 o pensador brasileiro Olavo de Carvalho escreveu sobre Saramago em O Globo (http://www.olavodecarvalho.org/semana/030419globo.htm) não assentariam bem ao perdedor, com os indispensáveis acertos:

O sr. José Saramago, que é quase tão inteligente quanto parece, levou quatro décadas para descobrir que Fidel Castro não presta. O sr. Luiz Inácio, que não parece nada inteligente e o é tanto quanto parece, talvez demore mais alguns meses, caso não se veja nas mesmas circunstâncias que levaram o escritor português a essa deprimente conclusão. Aconteceu que, após ter sonhado todo esse tempo com o ditador cubano, fazendo dele o herói de não sei quantas epopéias libertárias, uma bela manhã o romancista despertou com a estranha sensação de que o limite de sua amável complacência para com o homicídio em massa tinha sido ultrapassado. Fuzilar dezessete mil pessoas estava bem, era decente, não feria a moral nem os bons costumes. Mas dezessete mil e três, faça-me um favor! Era de tirar o sono de qualquer dorminhoco. Chocado com a tripla excrescência, Saramago enfim acordou, e já acordou brabo, acusando Fidel de ter estragado os seus sonhos.
É verdade que em épocas anteriores o sono do Nobel português tinha resistido incólume a doses bem maiores de truculências. Todo o mundo lusófono o ouviu roncando enquanto Stalin matava vinte milhões de russos, Mao sessenta milhões de chineses, Pol-Pot dois milhões de cambojanos. Mas esse aparente paradoxo tem explicação fisiológica: os jovens dormem melhor que os velhos, e o sr. Saramago, embora ninguém jamais suspeitasse disso, foi jovem antes de chegar à idade senil.

Sobre a imagem: Capelinha das Aparições de Fátima dinamitada (http://www.santuario-fatima.pt/portal/arquivo.php?item=1525) durante a Primeira República (06-03-1922).

26 março 2007

INDEFINITIVO

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Álvaro de Campos


Indefinitivo não é palavra dicionarizada, mas é gramaticalmente bem formada: como há definido e definitivo, ao lado de indefinido também podia haver indefinitivo.
O que quero dizer é que o que a seguir vou escrever sobre a Mensagem de Fernando Pessoa precisa de mais meditação e fundamentação: não é definitivo.
Quando o autor afirma – e ele não é peco a afirmar – que «o mito é o nada que é tudo», provavelmente estará muito próximo dum pensamento como o que Eça de Queirós expõe na Relíquia sobre a ressurreição de Jesus Cristo. Se eu me lembro bem do que lá diz, e certamente lembro-me aproximadamente, ele pretende fazer crer que a afirmação da ressurreição assenta só na histeria de Maria Madalena, que não tem base nenhuma de realidade, e que, apesar disso, com ela se criou uma civilização de 2000 anos.
É claro que isto é falso. Mas adiante, que não vem muito para o caso esmiuçar aqui essa falsidade.
Quando Pessoa quer que se divulgue intensamente o mito do sebastianismo, o que de facto ele pretenderá é fundar a Religião do Encoberto.
Mas tudo isto começa mal: quem lhe revelou o «sinal» (Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum) que devia dar garantia a toda a sua profecia de novo Bandarra? Sabendo ele que D. Sebastião, o seu «messias», nunca vai voltar, que descaramento é o dele ao tecer toda a urdidura do seu texto? Que história do futuro é esta que quer contar? Que clavis prophetarum lhe abriu as portas visionárias?
No Evangelho de S. João, Jesus diz uma vez: «Ainda não chegou a minha hora». Mas havia de chegar: a hora da consumação da redenção, a hora em que brilhou o amor sem limites de Deus, quando o Filho Se entregou por aqueles que O crucificavam.
Na Mensagem, que tem muito de blasfemo, proclama o poeta no poema Nevoeiro: «É hora!» Mas não era, porque não aconteceu nada
Diz Pessoa que o Império Português do séc. XVI era como «ante-arremedo» do Quinto Império que havia de vir. Se calhar, já o P.e António Vieira, que tinha costela de louco, dissera coisas semelhantes. Mas já eram falsas na altura e agora ainda o eram mais claramente.
Este modo de falar (o autêntico, não a sua deturpação), se me não engano, tem origem em S. Paulo: é ele que ensina que certos acontecimentos vétero-testamentários eram figura do que havia de acontecer com Cristo. Por exemplo, a passagem do Mar Vermelho, com a consequente libertação do povo hebreu, é figura da redenção; o sacrifício (não consumado) de Isaac aponta para o de Cristo, etc. Parece que nasce daqui o «ante-arremedo» pessoano.
O Quinto Império seria o «Novo Céu e a Nova Terra» de que fala o Apocalipse
Aonde nós chegámos!

«Ó Verdade, esquece-te de mim!», escreveu Álvaro de Campos no Demogorgon.
É caso para corrigir:
Ó Verdade, lembra-te de nós!

24 março 2007

MANUEL DE SÁ

Aqui onde eu vivo, houve no século XVI várias pessoas importantes; uma delas foi um jesuíta, de nome Manuel de Sá. Eu coloquei uma breve biografia dele na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_S%C3%A1), mas vou acrescentar aqui algo mais.
Manuel de Sá nasceu em 1528 (é portanto três, quatro anos mais novo que Camões), e morreu em 1596, nos arredores de Milão, Itália (Camões tinha morrido dezasseis anos antes). Entrou para os Jesuítas com dezassete anos. A Companhia de Jesus estava então no seu explosivo início; tinha sido fundada em 1540, mas já reuniria em 1545 centenas de membros.
Depois de estudar em Coimbra, foi Manuel de Sá para a Espanha, para a província de Valência, mais em concreto, para Gandia. Com dezanove anos (1547), começa a ensinar Filosofia na Universidade local, que fora fundação do Duque de Gandia – duque que virá a ser S. Francisco de Borja. Manuel de Sá foi professor particular deste Santo e acompanhou-o a Roma em 1550-51.
Regressado a Espanha, passou este vilacondense para Alcalá de Henares, para uma universidade que havia de ser conceituadíssima e ficava nas proximidades de Madrid (é conhecida também como Universidade Complutense).
«Chamado por Santo Inácio de Loiola a Roma, aí começou a sua brilhante carreira de professor de Teologia e de Sagrada Escritura no Colégio Romano, onde foi também prefeito dos estudos» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).
«Foi um dos correctores designados por S. Pio V a fim de preparar uma revisão oficial da Vulgata (a tradução latina da Bíblia por S. Jerónimo), e no pontificado de Gregório III fez parte da comissão da qual saiu a edição dos Setenta por Sisto V» (ibidem).
Estava-se no período da Contra-Reforma e do Concílio de Trento; havia uma necessidade acrescida de ser científico. Chama-se Vulgata à tradução da Bíblia para latim feita por S. Jerónimo no séc. IV. Os Setenta são uma tradução do Antigo Testamento para grego realizada ainda antes da nossa era.
Manuel de Sá escreveu em latim as suas obras; as citações que dele faço, traduzi-as. No início das Notationes, explana o autor a utilidade do seu livro:

1. Explicam, de um modo muito breve, toda a Escritura, segundo o sentido literal; e, que eu saiba, tal nunca tinha sido feito antes. Alguém dedica enormes volumes a cada um dos livros da Escritura; nós, como se vê, seguimos caminho muito diferente.
2. Trazem várias citações do hebraico, do aramaico e dos Setenta, o que também é novo e muito valoriza a nossa edição.
3. Podem ser impressas num livro independente, mesmo num pequeno volume, como as escrevemos. Quem é que, não tendo consigo a Bíblia Sagrada, de modo a poder consultá-la rapidamente, ou antes, quando a lê, pode apresentar tais Anotações?
4. Elas podem ser impressas com a Bíblia, ao modo das que fez Vatablus, e que mereceram grande aceitação, embora não expliquem o nosso texto mas não sei que edição hebraica.
5. Acrescentámos no fim do livro explicações de todas as expressões usadas na Vulgata, que trazem grande luz ao entendimento de toda a Escritura.
6. Acrescentámos também um copioso índice, mas ao mesmo tempo breve, como é nosso hábito, onde cada um pode encontrar facilmente quase tudo o que quer.
7. Preparámos ainda um segundo índice, por ordem alfabética, de frases selectas da Escritura, que pode substituir a concordância; contém quase tudo o que pode ser usado nos sermões, nas citações e nas meditações.

Os Aforismos, dedica-os a Nossa Senhora nos seguintes termos:

Publiquei há pouco, em nome do vosso Filho, ó Virgem Santíssima, as Anotações a toda a Sagrada Escritura; não encontrei ninguém a quem com mais vantagem pudesse dedicar o livro. Mas, depois do Filho de Deus, a quem dedicaria esta obra senão à Mãe de Deus?
Aceitai, pois, ó Sacrário da Sabedoria divina, este livrinho ordenado com frases de sábios ilustres e guardai-o com a Vossa protecção; promovei-o, para que ajude à salvação eterna de muitos.
Ámen.


É muito elucidativo, para medir a importância de Manuel de Sá, ver o que se passou com as edições das suas obras:
Os Escólios aos Quatro Evangelhos (Scholia in quatuor Evangelia, ex selectis Doctorum sacrorum sententiis collecta. Per R. P. Emanuelem Sa, Doctorem Theologum Societatis Iesu. Addita et quaedam ab eodam Auctore) saíram «Ex officina Plantiniana, Apud Viudam, et Ioannem Moretum», em Antuérpia, em 1596.
Tiveram reedições em Lião, 1602, 1610 e 1620; Veneza, 1602; Colónia, 1612 e 1620.
As Anotações a toda a Sagrada Escritura (Notationes in totam Scripturam Sacram, Quibus omnia fere loca difficiliora breuissime explicantur; tum variae ex Hebraeo, Chaldaeo et Graeco lectiones indicantur. Opus omnibus Scripturae studiosis utilissimum, certe a plurimis diu multumque desideratum), foram editadas em 1598.
Tiveram reedições em Lião, 1601, 1609; Mogúncia, 1610; e Colónia, 1610, 1620.
Os Aforismos dos Confessores (Aphorismi Confessariorum ex Doctorum sententiis collecti) foram editados em Veneza, em 1595, e tiveram numerosas edições nos 15 anos seguintes.
Dos muitos elogios que são feitos a Manuel de Sá, veja-se este na sua linguagem espanhola e barroca, que acentua a ideia da simplicidade e profundidade dos seus escritos:

De rara viveza de ingenio, como reconoce hoy el orbe literario, la abundancia fértil de doctrina y de discurso, la concisión de voces en estilo elegante y claro, tan sucinto y tan puro como su apellido; cada sentencia y aun cada palabra un diamante con muchos bril­los y mucho fondo en poco cuerpo, merecie­ron que le comparase la elocuencia a la inmensidad profunda del río Marañón en aquel sitio donde estrecha toda la presunción, y majestad de casi ochenta leguas de boca a tan breve arre­batado distrito, que casi se puede avanzar de un salto hallando-se en el la profundidad sin latitud. (Cienfuegos)

Ou este em latim, em que se declara que é perito em três línguas (hebraico, grego e latim) e que se aplicou à correcção da edição dos Setenta:

Trium linguarum peritus in adornandam Romanam Septuaginta editionem operam suam contulit.

Sobre as imagens: a de cima é o rosto das Notationes; a do meio, uma edição dos Scholia; a do baixo, uma dedicatória do autor a S. Francisco de Borja.

22 março 2007

A BEATA ALEXANDRINA E A EUCARISTIA

Uma vez, não há muito tempo, um bispo bracarense, professor universitário, veio a Balasar. Na altura da homilia, dirigiu-se à assistência apoiado num texto escrito. Concluiu a alocução com a leitura do Hino aos Sacrários da Alexandrina. No final da Eucaristia, um sacerdote comentou com ele: «Sabe, Sr. Bispo, qual foi o momento melhor da sua homilia? Foi quando citou a Beata Alexandrina». Eu também lá estava e sei que foi mesmo assim.
Os escritos da Beata Alexandrina são muitas vezes duma qualidade que nos deixa espantados, sabendo que a sua instrução escolar era tão limitada.
No Sítio Oficial, há uma página Mensal (http://alexandrinabalasar.free.fr/pagina_mensal.htm) onde se vem a apresentar um pequeno livro, preparado na Itália; está a ser traduzido para umas seis línguas. Da página do próximo mês, deixo aqui algumas citações. Fala Jesus:

Longe do Céu, longe de Jesus está todo aquele que está longe do sacrário.
Eu quero almas, muitas almas verdadeiramente eucarísticas.
O sacrário, o sacrário, oh, se fosse bem compreendido o sacrário!
O sacrário é a vida, o sacrário é o amor, o sacrário é a alegria e a paz.
O sacrário é lugar de dor, é lugar de afronta e lugar de sofrimento:
O sacrário é desprezado.
O Jesus do sacrário não é compreendido! S (11-09-53)

Minha filha, minha filha, luz e estrela eucarística, (...)
Escolhi-te como vítima para tu continuasses a minha obra de redenção.
Pus no teu coração o amor, o amor louco pela Eucaristia.
É graças a ti, é à luz de este fogo que tu deixaste acender que muitas almas, guiadas por esta estrela escolhida por mim, transportadas do teu exemplo, se transformarão em almas ardentes, em almas verdadeiramente eucarísticas.
Pobre mundo, sem a Eucaristia! Pobre mundo, sem as minhas vítimas, sem hóstias imoladas comigo continuamente!
Eu quero, minha filha, diz que eu quero um mundo novo, de pureza, um mundo todo eucarístico. S (05-01-52)

Diz às almas que Me amam que vivam unidas a Mim durante o seu trabalho.
Nas suas casas, seja de dia seja de noite, ajoelhem-se muitas vezes em espírito e de cabeça inclinada digam:
“Jesus,
Eu Vos adoro em todo o lugar onde habitais sacramentado;
Faço-Vos companhia pelos que Vos desprezam,
Amo-vos pelos que não Vos não amam;
Desagravo-Vos pelos que Vos ofendem.
Jesus, vinde ao meu coração!”
Estes momentos serão para Mim de grande alegria e consolação.
Que crimes se cometem contra Mim na Eucaristia! S (02-10-48)

Algumas pessoas acharão de lamentável ingenuidade que faça estas citações. Para esses, hei-de falar aqui um dia do que foi o jejum da Alexandrina.

Sobre a imagem: a fotografia da Alexandrina acima integra um conjunto em que foram fotografadas várias pessoas; foi tirada na Trofa quando um dia ela ia a caminho do Porto. Tem a particularidade de a Beata estar sentada, o que é caso quase único. Até há pouco esta fotografia era desconhecida em Balasar.
O S, seguido de uma data, no fim das c itações, é abreviatura de Sentimentos da Alma, um volumoso diário da Alexandrina; talvez umas 3.000 páginas A4 dactilografadas, não menos.

21 março 2007

QUE ESTRANHO!

Que estranho!
Quando oferecemos cinco euros na igreja parece-nos uma quantia considerável, mas não o é quando vamos ao supermercado.

Que estranho!
Sessenta minutos na igreja parecem intermináveis, mas não o são frente ao televisor, quando nos dedicamos a alguma actividade desportiva ou a outro passatempo.

Que estranho!
Como é difícil a leitura dum capítulo da Bíblia, e é tão fácil ler as 200-300 páginas do último best-seller!

Que estranho!
Não sabemos falar quando rezamos, mas falamos tão bem quando murmuramos do vizinho.

Que estranho!
Precisamos que nos informem com duas ou três semanas de antecedência para incluir na nossa agenda um encontro religioso, mas não temos dificuldade em ajustar os nossos programas para um acontecimento social.

Que estranho!
Entusiasmamo-nos quando um jogo de futebol é prolongado no tempo suplementar e ao contrário lamentamos se uma homília se alonga alguns minutos mais que o costume.

Que estranho!
As pessoas afanam-se a tomar os primeiros lugares para um evento desportivo, e escolhem os últimos na igreja.

Que estranho!
Como é difícil partilhar algum passo do Evangelho, e é tão fácil falar de qualquer outro assunto!

Que estranho!
Todos queremos ir para o Paraíso, desde que não nos peçam que creiamos, que nos envolvamos, que falemos ou façamos alguma outra coisa.

Tradução livre duma página italiana

19 março 2007

FRIVOLIDADE

Acho muito curiosa a quantidade de teatros que existia na Palestina ao tempo de Jesus Cristo. Havia-os pelo menos em Cesareia Marítima, em Bet-Shean, na Samaria e em Jerusalém (sobre estas cidades, informe-se neste vasto site: http://www.bibleplaces.com/index.htm). E se passássemos para o outro lado do Jordão havia logo o de Gerasa (a «Pompeia do Oriente») e outros.
Que levaria as autoridades do tempo a erguer tão dispendiosos equipamentos de cultura, como hoje lhes chamaríamos? Verdadeiramente, não sei. É possível que os livros de Flávio Josefo esclareçam isto, mas nunca tive tempo para os ler a eito (veja-os aqui em inglês: http://members.aol.com/fljosephus/works.htm). Mas não me custaria muito a crer que se tratasse de monumentos à frivolidade.
Nos Evangelhos estes teatros nunca são mencionados. Mas talvez se encontrem lá alguns indícios deles.
Quando Jesus chama hipócritas aos fariseus, e fá-lo frequentemente, está a chamar-lhes (ao menos segundo o texto grego) actores, farsantes, que é o que a palavra quer dizer na origem.
Mas vejam-se também estas suas palavras:

A quem, pois, compararei os homens desta geração? A quem são semelhantes?
Assemelham-se a crianças que, sentados na praça, se interpelam umas às outras:

«Tocámos flauta para vós e não dançastes!
Entoámos lamentações, e não chorastes!» Lc 7, 31-32

Estas crianças, pelo menos assim parece, estão representar. Estarão a imitar actores?
No mundo romano são conhecidos dois textos famosos, embora de datas posteriores, em que se associam os espectáculos cénicos à frivolidade, à alienação – como hoje acontece na televisão, principalmente.
O mais célebre é de Juvenal. Escreve ele:

... [populus Romanus] qui dabat olim
imperium, fasces, legiones, omnia, nunc se
continet atque duas tantum res anxius optat,
panem et circenses.

Em português:

... [o povo romano] que noutro tempo distribuía o poder, a administração, as legiões, tudo, agora, voltado para si, deseja só duas coisas, pão e espectáculos.
(
Sátiras, 10, 78-81)

O segundo é de Plínio, o Moço, que se encontra em Roma e aproveitava o tempo para trabalhar. Numa carta, explica como consegue concentrar-se:

"Quemadmodum" inquis "in urbe potuisti?" Circenses erant, quo genere spectaculi ne levissime quidem teneor. Nihil novum, nihil varium, nihil, quod non semel spectasse sufficiat.

Em português:

- Como pudestes fazer isso em Roma? – perguntas. – Havia jogos de circo e nada me atrai para esse género de espectáculos. Não há neles nada de novo, nada de original, nada que não baste vê-los uma única vez.

Já se pensaria mais ou menos assim na Palestina do tempo de Jesus? Sendo os teatros foco de cultura helenística, pagã, é natural que a atitude mais divulgada fosse de franca recusa, como afrontamento ao culto do Deus único.

Imagens: a de cima representa o teatro de Cesareia Marítima, a de baixo o de Bet Shean.